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Durante o decorrer de minha existência, pude perceber que o ser humano é movido por projetos e êxitos. Aos projetos chamamos sonhos; aos êxitos, vitórias, e o projetar de toda uma vida sempre vem acompanhado de ações que determinarão o sucesso ou o fracasso desses empreendimentos.
Meu sonho começou quando me perguntaram, ainda em meus anos pueris, o que eu queria ser quando crescesse. Seria absurdamente normal para um menino responder que gostaria de ser astronauta, bombeiro, policial ou qualquer profissional que impressionasse o universo infantil. No entanto, sem titubear, respondia: Eu quero ser médico. Toda indumentária alva desse profissional e a capacidade de ajudar o próximo a exaurir a dor encantavam-me. Deu-se, então, o início de meu projeto.
Fui um aluno mediano durante meus estudos médio e fundamental, não tão aplicado e nem tão relapso. Mas sabia que essa minha escolha exigiria horas, dias e anos de estudos com afinco. Com a esperada formatura do ensino médio em 2000, veio o primeiro percalço: meus pais não possuíam recursos suficientes para me ajudar a prosseguir com os estudos. Fui, portanto, trabalhar no comércio de uma cidadezinha no interior do Mato Grosso. Mas o sonho de me tornar médico ainda ardia em meu coração.
Subitamente, tive a idéia de vender uma motoneta que possuía e, orando a Deus, fui para a cidade de Umuarama, no estado do Paraná, fazer meu primeiro ano de cursinho. Até ali, pensava saber alguma coisa... Nesta época, morei de favores na casa de minha avó, que, como eu, também não possuía muitos recursos.
Resolvi prestar vestibular para o curso de Agronomia na UEM, uma vez que meus pais não poderiam me manter no cursinho o tempo suficiente para passar em medicina. Enfrentando uma concorrência de dois candidatos para cada vaga, tive o desprazer de não acertar nenhuma questão de física: fui desclassificado! Fiz mais um semestre de cursinho e estudei com muito esmero essa matéria. Prestei novamente o vestibular para Agronomia na UEM, já com a concorrência de catorze candidatos para cada vaga. Acertando apenas 1 (uma) alternativa de física, fui o 10º classificado no curso e ingressei na faculdade.
Nessa época, fui acolhido por uma família cristã, que cedeu um quarto para que eu morasse. Fui tratado como filho naquele lugar, mas sentia-me incomodado por não poder ajudar com as despesas do lar. Lembro-me de que, nesse período, minha família vivenciava seus dias mais difíceis no Mato Grosso. Fiquei desesperado ao ligar para minha mãe e perguntei como estavam. Tudo bem, Camilo! Acabei de cozinhar a última xícara de arroz, mas Deus providenciará mantimentos para amanhã. Essa foi a resposta. Isso mexeu profundamente comigo. Senti que precisava fazer algo com urgência para continuar a estudar.
Descobri que ao lado da casa onde eu morava vivia uma senhora que fazia chocolates artesanais e tive a idéia de revendê-los. Negociando com ela, eu passaria a receber uma comissão pelas vendas. Comecei a levar os doces para faculdade e lá os vendia. Houve algumas vezes em que o chocolate me serviu de almoço e de passe de ônibus, que trocava com o cobrador na catraca da lotação. Mesmo assim, o único desânimo era estudar algo que, na verdade, não me agradava.
Certa manhã, acordei decidido a desistir do curso de Agronomia. Fiz o trancamento da matrícula e voltei para o cursinho. Muito me alegrei ao encontrar pessoas que acreditavam em meu sonho, e elas me abriram as portas para que eu vendesse os doces nos intervalos de aula. Dessa forma, eu pagava metade da mensalidade e avançava em busca de meu sonho. Foi então que me mudei para o quarto de uma igreja, cujo pastor me ajudou muito, e lá passei a viver. Era bem simples e humilde, mas eu não me importava.
As vendas dos chocolates iam muito bem, a ponto de me fazer conseguir pagar as mensalidades do cursinho para que meu irmão, que morava com meus pais no Mato Grosso naquele momento, estudasse. Fui me esforçando, e batalhando e, sobretudo, acreditando que com o trabalho aliado a fé seria possível concretizar qualquer sonho. Meu irmão, que me ajudava com a venda dos doces, aproveitou aquela chance para lutar por um novo futuro e felizmente passou no vestibular para Engenharia Civil na UNIOESTE Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Hoje, está quase formado. Quanto a mim, continuei a batalhar pelo sonho da Medicina, mas na cidade de Cascavel-PR.
Fui abraçado por uma exímia equipe de professores, os quais sempre acreditaram em meus sonhos e me impulsionaram a continuar. O diretor do estabelecimento de ensino verdadeiramente me adotou. Certa vez, em mais um vestibular, pensei que havia chegado o fim dos meus sonhos. Ia tudo bem no decorrer de mais um concurso: as questões estavam, tecnicamente, fáceis. De repente, senti a necessidade de ir ao banheiro. Chegando lá, para meu desespero, o detector de metais indicou a presença de material suspeito. Ao ser revistado, fui encaminhado à supervisão do vestibular e, com palavras gélidas e cruas, ouvi: Você está desclassificado por portar chaves em seus bolsos. Dirija-se ao portão de saída!. A sensação que havia em mim era a de amputação. Confuso e transtornado, sentia como se me tivessem roubado uma parcela da vida, aniquilando um sonho.
Naquele momento, saindo desesperado da sala de provas, encontrei o diretor do cursinho, que me abraçou e chorou comigo ao saber da notícia. Fiquei absurdamente atordoado; não aceitava a idéia de ter que fazer novamente mais um ano de aulas por um motivo que a mim parecia tão injusto! Algumas realidades que enfrentei tomavam-me o pensamento violentamente, como o caminhar de 10 (dez) quilômetros diários para ir ao colégio, muitas vezes no frio e na chuva, sem dinheiro para pagar a lotação. Em tudo, porém, há um propósito estabelecido por Deus. Era essa verdade que me confortava.
Conversando com o diretor, fiz minha matrícula novamente e comecei a vender doces neste colégio também. Estudei com muita gana durante todo o ano de 2007 e, para minha alegria, ainda que momentânea, fui aprovado em Medicina na UFPel Universidade Federal de Pelotas no Rio Grande do Sul. Conversando com meus pais e analisando a nossa situação, entretanto, chegamos à triste conclusão de que eu não poderia cursar, pois não teriam condições de manter a mim na cidade de Pelotas-RS e meu irmão em Cascavel-PR. Duro golpe: passei noites mal dormidas, aos prantos, olhando para meus livros e tendo vontade de queimá-los... Era como se tivesse uma jóia em minhas mãos, mas meus dedos fossem incapazes de segurá-la. Em desespero, pensei de tudo, da mudança de curso (quem sabe o Direito?) à entrega dos pontos. Quanta frustração! Foram momentos dolorosos.
Em uma tarde, fui ao colégio para conversar com o diretor, mas estava tomado de vergonha e hesitações para revelar aqueles planos. Acreditava que ele não compreenderia minha angústia. Ledo engano: uma vez mais, emocionado, encorajou-me a perseverar na conquista de meus anseios. Não seria probidoso abandonar meu sonho depois de tanto empenho. Deveria, na verdade, encarar mais um ano de sala de aula. Apoiado por pessoas que me amavam, retomei as rédeas da razão e continuei minha peleja.
Era o ano de 2008. As expectativas pela aprovação em um local onde pudesse morar e estudar haviam se intensificado. Com elas vieram também cobranças redobradas: eu era obrigado a passar, visto que já havia aberto mão de estudar em uma Universidade Federal. Alguns alunos me alcunharam néscio, outros sentiam pesar. Houve aqueles, também, que me pressionavam a passar de qualquer jeito! Corajosamente, estudei naquele ano com muito esmero e dedicação. Chegada a época dos vestibulares, alguns professores amigos me ajudaram, custeando e financiando algumas inscrições e viagens para mim.
Depois de realizadas as provas, comecei a sentir algo diferente: o sabor da vitória já me apetecia! Era como se eu já soubesse do resultado e, de antemão, meu coração já vibrava de felicidade. Em certa manhã, recebi uma ligação de meu pai, que se mostrou muito sério e me perguntou se eu estava bem e se eu estava deitado. Respondi que sim e, então, ele disse: Então se levante agradecendo a Deus, porque você foi aprovado na Universidade Federal de Mato Grosso em 28º lugar!!!
O sonho! Era a realização do meu sonho que havia chegado! Como explicar a euforia que essa notícia me trouxe? Simplesmente indizível! Em Cuiabá, eu teria como viver! A emoção era tamanha que me rendi às lágrimas. Mas não eram lágrimas quaisquer! Eram lágrimas que me faziam recordar em segundos todo o sofrimento por que passei.
Aprendi, com tudo que vivi em meus 25 anos de idade, que as vitórias e conquistas de um homem não são determinadas pelos percalços e intempéries pelos quais ele passa, mas pela maneira que esse homem age diante das circunstâncias. Projetei, lutei e conquistei. Hoje, sou mais feliz! Com muito esforço e com a ajuda de pessoas que acreditaram em meu sonho, venci o determinismo. Graças a Deus!
Camilo Rocha Nascimento
(Acadêmico do curso de Medicina - UFMT 2009)